
A tentativa do filósofo Luiz Pondé, em seu artigo publicado pela Folha de São Pailo, nesta segunda-feira, 19, de equiparar militâncias a fanatismos religiosos serve, na prática, como um sofisticado escudo ideológico. Sob o manto de uma suposta análise filosófica universal, ele opera claramente as estratégias 4 e 7 de Schopenhauer: vestindo-se de imparcialidade para ocultar sua verdadeira intenção, que é defender um lado específico do debate. Ao generalizar e patologizar a crítica social, seu discurso não é neutro; é um instrumento retórico que busca desarmar o pensamento progressista, tratando qualquer defesa de pautas como igualdade ou justiça social como mera doença dogmática. Isso, obviamente, está implícito.
Essa falsa simetria esconde seu alvo principal e absolve seu objeto real de crítica. Enquanto ataca com voracidade as “igrejas” identitárias, silencia sobre a mais perigosa e fanática religião política contemporânea: o bolsonarismo. Este sim, cultua um messias terreno, Jair Bolsonaro, com rituais cívicos distorcidos, uma liturgia de fake news e uma fé inabalável que rejeita evidências eleitorais e científicas. Pondé, que manifestou opinião contrária à esquerda, ignora solenemente esse fundamentalismo concreto e violento que ameaça a democracia.
Portanto, sua análise não passa de uma camuflagem. Ao invocar um suposto fanatismo genérico da “militância”, ele oferece cobertura intelectual para um projeto autoritário de direita. A imparcialidade alegada é uma farsa que, no fim, apenas protege os verdadeiros fanáticos, que não estão nos movimentos sociais, mas nos palanques que pregam a insurreição e idolatram um líder salvador da pátria. É uma neutralidade que pende perigosamente para um lado só.


