
O livro “Em Nome dos Pais”, de Matheus Leitão, é um exercício de memória íntima e coletiva. Nele, o jornalista reconstrói a história de seus pais, presos e brutalmente torturados pela ditadura militar (1964-1985), dedicando especial atenção à figura do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, símbolo máximo da violência de Estado naquele período. A narrativa é atravessada pela dor, pela perda e pela luta por justiça e verdade — um relato que honra as vítimas e expõe os carrascos, insistindo na necessidade de não esquecer para que nunca mais se repita.
Em um movimento histórico perverso, a figura de Ustra ressurgiu décadas depois não como o torturador que foi, mas como um ícone celebrado por setores da família Bolsonaro. O então presidente Jair Bolsonaro, em ato público, prestou homenagem a Ustra, chamando-o de “herói”. Seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, não só endossou essa narrativa, como construiu sua trajetória política na defesa do legado autoritário, da violência de Estado e da ruptura institucional. Enquanto Matheus Leitão escreve para desenterrar a verdade, Flávio Bolsonaro fala para reabilitar os algozes.
Aqui reside o paralelo cruel: a mesma figura que, para Leitão, representa o trauma e a brutalidade sofridos por sua família, para os Bolsonaro, representa um modelo a ser exaltado. Matheus relata a dor de quem teve a mãe torturada; Flávio defende a política do pai que elogiou o torturador. Matheus busca justiça histórica; Flávio anuncia sua candidatura presidencial prometendo “retomar o projeto” bolsonarista, marcado por discursos de ódio, ataque às instituições e naturalização da violência política.
Enquanto “Em Nome dos Pais” é um testemunho a favor da vida e da democracia, o projeto político de Flávio Bolsonaro se alimenta da mesma lógica que outrora prendeu, torturou e calou: a do inimigo a ser aniquilado, da verdade a ser negada, da memória a ser apagada. Um filho escreve para curar; outro filho fala para repetir o trauma. O Brasil, entre esses dois polos, segue definindo se sua história será a da reparação ou a da repetição.
Em entrevista à Folha de São Paulo no fia 14 de junho fo sno passado, Flávio ameaçou o uso da força contra Suprema Corte, cado um indulto em favor de seu pai srha julgado inconstitucional.
Segundo Flávio, “se acontecer de o (Jair) Bolsonaro ser condenado” e um hipotético presidente aliado do pai lhe conceder um perdão da pena, será necessário garantir que o Supremo “respeite os demais Poderes”, sob risco de gerar um cenário, segundo o senador, que envolva “uso da força”. Flávio alegou ainda que não se referia ao uso da força “em tom de ameaça”, e sim “fazendo uma análise de cenário”.


