Luiz Carlos Bordoni
Há tempos sustento uma tese incômoda, mas cada vez mais evidente: o
Brasil vive sob uma ditadura partidária. Não se trata de autoritarismo
clássico, de força bruta ou ruptura institucional, mas de um sistema em
que os partidos, por meio do controle do Parlamento, submeteram o
Poder Executivo a uma tutela permanente.
A eleição presidencial, ao contrário do imaginário popular, deixou de ser
prioridade estratégica para as legendas. Serve como vitrine, narrativa e
instrumento de barganha. A disputa que realmente importa é a
proporcional, especialmente a eleição para a Câmara dos Deputados. É
ali que se concentra o poder real.
Quem detém a maior bancada controla a pauta, as comissões, o
orçamento, as emendas e, sobretudo, a governabilidade. O presidente,
embora eleito por milhões de votos, passa a governar sob autorização
tácita do Congresso. Manda quem tem votos no plenário; governa quem
consegue sobreviver às exigências da base.
Conversei com parlamentares de diferentes partidos e ouvi, sem
rodeios, uma avaliação recorrente: o Executivo é um mau negócio.
Desgasta, expõe, cobra decisões impopulares e concentra crises. Muito
mais vantajoso é controlá-lo à distância, mantendo-o dependente e
fragilizado.
A lógica ficou clara, mais uma vez, no PSD, que hoje abriga três
presidenciáveis e não demonstra ansiedade sobre quem liderará a
chapa. O foco é outro: formar uma bancada forte e recuperar
hegemonia no Congresso. A Presidência é acessório; o Parlamento é o
prêmio.
A história confirma esse padrão. Getúlio Vargas foi solapado por um
Congresso que fabricou instabilidade. Jânio Quadros renunciou diante
da impossibilidade de governar. Collor caiu ao perder a base. Dilma
Rousseff foi afastada quando deixou de atender às engrenagens do
sistema. Até Lula, em seu primeiro mandato, só garantiu
governabilidade ao custo do Mensalão.
A conclusão é dura, mas necessária: não vivemos a ditadura de um
homem, e sim de um método. O voto escolhe o presidente, mas o poder
se organiza nas bancadas. O presidente passa. Os partidos ficam. E
quanto maior a bancada, menor a autono o Executivo e mais frágil a democracia real

