A fusão entre identidade nacional e fé cristã promovida pelo nacionalismo cristão representa uma distorção grave de ambos os conceitos, transformando o Evangelho em um instrumento de poder e exclusão. Filosoficamente, esse movimento nega a base universalista e humanista que sustenta sociedades democráticas pluralistas, ao defender hierarquias étnicas e a revogação de direitos civis fundamentais, como ilustrado pelos projetos no Tennessee.
Teologicamente, constitui uma idolatria ao substituir a soberania de Deus e seu reino transcendente pela lealdade suprema a uma nação étnica específica, um “príncipe cristão” ou uma visão tribal do passado, em claro conflito com o chamado bíblico para um povo de todas as tribos e línguas (Apocalipse 7:9).
As pretensões do movimento são um insulto aos ensinamentos centrais de Cristo e à tradição filosófica ocidental. Jesus estabeleceu uma clara separação entre as esferas espiritual e temporal (“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” – Mateus 22:21) e fundamentou a lei no amor universal ao próximo, incluindo o estrangeiro (Lucas 10:25-37). Na filosofia, o Iluminismo e a tradição dos direitos naturais, que influenciaram os fundadores dos EUA, partem da premissa da igualdade e da liberdade de todos os seres humanos, não de privilégios baseados em herança étnica ou religiosa. Portanto, a visão que questiona o sufrágio universal e defende deportações em massa não é um “retorno” a valores fundacionais, mas uma ruptura radical com eles.
O verdadeiro testemunho cristão, assim como o projeto de uma sociedade justa, se configura na hospitalidade e na busca pelo bem comum, não no separatismo e na dominação. O apóstolo Paulo proclama que, em Cristo, “não há judeu nem grego” (Gálatas 3:28), desconstruindo qualquer base teológica para um nacionalismo étnico. Constranger comunidades locais, como ocorre em Gainesboro, com projetos de segregação baseados em uma identidade supostamente superior, é a antítese do mandamento de amar o próximo e de construir pontes. Defender a democracia e a dignidade humana contra essa tendência extremista é um imperativo tanto cívico quanto moral, alinhado com o cerne da mensagem cristã e dos princípios humanistas.


