
O Brasil anoiteceu nesta quinta-feira, 19, sob uma névoa de pânico que não escolhe classe social, cargo ou poder aquisitivo. A transferência de Daniel Vorcaro para a Superintendência da Polícia Federal, aliada às fortes evidências de que o banqueiro fechou um acordo de delação premiada, transformou o país em um imenso divã de terapia coletiva. Do Oiapoque ao Chuí, passando pelo Espírito Santo e pelo Pará, políticos de todos os matizes perceberam que suas carreiras podem estar com os dias contados. O que antes era um discreto burburinho nos gabinetes transformou-se em desespero explícito, com assessores próximos correndo às farmácias em busca de Rivotril para acalmar os nervos e medicamentos para diarreia – afinal, o medo de ser citado mexe com o corpo e a alma. Vorcaro assina termo de confidencialidade com autoridades. Vai faltar banheiros no Congresso Nacional.
Não são apenas os políticos tradicionais que estão em alerta máximo. O espectro da delação alcançou empresários de todos os portes, desde os lojistas da Rua 25 de Março, que sempre buscaram jeitos criativos de driblar a fiscalização, até os figurões do mercado financeiro da Faria Lima, que construíram fortunas à sombra de informações privilegiadas e relações promíscuas com o poder. O efeito dominó atinge também as mais variadas autoridades: do chefe de guarda-volumes de rodoviárias, que sempre fez vista grossa para pequenos contrabandos, até ministros do Supremo Tribunal Federal, que agora veem suas togas pesarem como chumbo diante da possibilidade de terem seus nomes vinculados a encontros e transações no mínimo suspeitas. O pavor é democrático: nivela todos por baixo, no desespero de uma ligação que pode não vir.
Se depender do que já vaza nos bastidores, o conteúdo da delação de Vorcaro vai muito além dos desvios de verba e das propinas tradicionais. Os rumores de que o banqueiro promovia festas nos moldes de Jeffrey Epstein, com mulheres trazidas até da Rússia de Vladimir Putin, adicionam uma camada extra de horror à crise. Agora, o medo não é apenas de perder mandato ou empresa, mas de ver a própria vida pessoal destruída em praça pública. Casamentos construídos ao longo de décadas podem ruir em questão de horas, e a elite brasileira, tão acostumada a pairar acima do bem e do mal, descobre que suas festas particulares podem se tornar o centro de um dos maiores escândalos da história recente. O país prende a respiração, e o estoque de calmantes das farmácias de Brasília já dá sinais de esgotamento.
*É jornalista e editorialista



