
A crítica ao sistema político brasileiro costuma ser feita como se os três poderes fossem entidades alienígenas, corpos estranhos que se abateram sobre a nação contra a vontade do povo. Não é bem assim. O Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto não estão suspensos no ar; são extratos de uma mesma conta cujo titular é a sociedade. E, infelizmente, o extrato revela uma realidade indigesta: não há ali a mínima sombra da virtude cívica que Plutarco imortalizou em suas Vidas Paralelas. Nenhum dos segmentos sociais formou cidadãos no molde daqueles legisladores e guerreiros que punham a res publica acima de tudo. Pelo contrário, o que se vê é a reprodução, em escala amplificada, dos nossos próprios vícios.
A prova mais evidente está na incongruência entre a reprovação institucional e a escolha eleitoral. Pesquisas mostram que cerca de 60% da população desaprova o STF. Mas essa mesma população — ou pelo menos a parcela que vai às urnas — elegeu Davi Alcolumbre para comandar o Senado e Hugo Motta para presidir a Câmara. É a mesma gente que colocou no Congresso uma leva de representantes cujo perfil autoritário escancara o que há de mais sombrio na formação moral do país. Refiro-me aos fascistas travestidos de conservadores: Nikolas Ferreira, Paulo Bilynskyj, Sargento Faour, Gilvan da Federal, e tantos outros que, mesmo com menor estardalhaço, não são menos perigosos à democracia — apenas mais dissimulados.
De outra ideologia, temos gente da propalada esquerda, cujo comportamento não é menos reprovável. Jaques Wagner, Rui Costa e outros cujo rubor está apenas no “santinho” e na bandeira — são a prova de que a moral e a ética exaladas pelos poros de Plutarco não estão associadas ao matiz partidário ou à ideologia.
Diante disso, a pergunta incômoda se impõe: como condenar a Suprema Corte, os congressistas e o Executivo sem reconhecer que eles são fruto de um sistema de valores que a própria sociedade cultiva? Quando o cidadão comum aplaude a truculência nas redes, naturaliza a corrupção no pequeno círculo de convivência, elege o mais estridente e punitivista — e depois se espanta com a truculência que emana dos poderes —, ele está apenas colhendo o que plantou. A hipocrisia é a marca registrada dessa relação: queremos juízes serenos, mas elegemos parlamentares que pregam o confronto; queremos estadistas, mas premiamos os que se especializam em espetáculo.
No fundo, quando a sociedade reprova os três poderes, está reprovando a si mesma. Somos uma sociedade de moral questionável, que condena o sistema político como se dele não fizesse parte. A prova cabal são os resultados que reproduzimos não apenas nos três poderes, mas em tantos outros segmentos: nas lideranças comunitárias que se perpetuam pelo fisiologismo, nos conselhos profissionais capturados por interesses de grupo, nas relações pessoais em que o “jeitinho” é exaltado como virtude nacional.
Enquanto não encararmos esse espelho — enquanto insistirmos em tratar os poderes como algo separado de nós — seguiremos eleitos pelo nosso próprio pior reflexo. A crítica ao sistema será apenas mais um gesto vazio, mais um alívio de consciência que não nos convida à mudança. E a conta, no final, continuará sendo paga por aquela mesma sociedade que insiste em não se reconhecer nas suas próprias criações.



