
Sigmund Freud, em Tótem e Tabu (1913), empreende uma arqueologia da psique coletiva. Ao investigar os povos ditos “primitivos”, o pai da psicanálise identificou dois pilares que sustentam a organização social mais arcaica: o totem – geralmente um animal, um ancestral mítico ou uma força da natureza – e o tabu – um conjunto de proibições sagradas que regula o desejo, o medo e a obediência. Apesar de o ensaio tratar de sociedades tribais, seus conceitos são surpreendentemente úteis para decifrar fenômenos políticos contemporâneos. O bolsonarismo, como movimento e como fenômeno de massa, pode ser lido à luz dessa obra: nele, a figura de Jair Bolsonaro foi alçada à condição de totem – um ser quase sobre-humano, intocável e fonte de identidade grupal – enquanto os tabus se manifestam na interdição à crítica, na lealdade incondicional e no medo paralisante de romper com o clã.
No totemismo freudiano, o clã venera um animal ou símbolo que representa sua própria ancestralidade e, ao mesmo tempo, seu código moral. O totem é sagrado; feri-lo é ferir a todos. Transferindo para o bolsonarismo, o “animal” não é um ser biológico, mas uma persona política construída com atributos de força, incorruptibilidade (moral, não financeira) e uma relação ambígua com a violência – o capitão reformado, a pistola no discurso, o desprezo pelo “sistema”. Como todo totem, ele exige respeito absoluto. Questionar Bolsonaro não é mera discordância política; é, para o bolsonarista convicto, um ato de sacrilégio. Cria-se um sistema de crença no qual o líder personifica o mito: ele é o protetor do clã contra o “inimigo externo” (o comunismo, o globalismo, o “politicamente correto”) e contra o “inimigo interno” (os traidores, os que cedem ao establishment). O medo de perder o totem é o medo de desmoronar a própria identidade.
Freud também explica que o tabu surge como defesa contra uma ambivalência emocional: o clã ama e teme o totem. O amor é evidente na devoção, nos atos públicos de apoio (motociatas, acampamentos, faixas), no sacrifício de reputação e até de vínculos familiares em defesa do nome. Mas o medo é mais sutil e revelador. O bolsonarista teme não o líder em si, mas o que viria depois de sua ausência ou derrota: a dissolução do clã, a invasão do “outro” (a esquerda, o STF, a imprensa), a perda de um mundo ordenado por hierarquias claras – nós contra eles. Esse medo alimenta a submissão: aceitam-se silêncios cúmplices, deslizes retóricos grotescos (a sugestão de fechar o STF, a defesa da tortura, as declarações misóginas) como meros “trejeitos” ou “narrativa da mídia”. O tabu maior é dizer que o totem está nu. Quem ousa fazê-lo é excomungado – vira “quadrilha”, “golpista” ou “traidor da pátria”.
A obediência ao tabu também opera pelo controle da pulsão. Na tribo, o desejo de matar o pai (ou o totem) é recalcado por meio da proibição. No bolsonarismo, qualquer desejo de ruptura – votar em outro candidato, criticar uma ação do governo, apoiar a vacinação mesmo quando o totem hesita – é transformado em culpa. A pressão do grupo é tão intensa que muitos preferem manter o vínculo com o mito a enfrentar o vazio de não pertencer. É aí que a razão se curva ao afeto: dados objetivos (a alta da mortandade na pandemia, os inquéritos sobre joias, os indicadores econômicos contraditórios) são reinterpretados ou rejeitados porque ameaçam o equilíbrio psíquico do clã. A pós-verdade, tão associada ao bolsonarismo, é a lógica do tabu operando em tempo real: o que protege o totem é verdadeiro; o que o fere é falso.
Mas há uma diferença crucial entre a tribo estudada por Freud e o bolsonarismo. Na sociedade primitiva, o totem era um animal ou uma planta – algo exterior, estável, que não fala nem age. O totem bolsonarista fala, age, trai, recua, chora e ataca. Essa humanidade imperfeita, paradoxalmente, reforça a submissão em vez de rompê-la. Por quê? Porque o líder que falha, mas não é punido pelo clã, torna-se um totem flexível: o fracasso é atribuído a forças externas (o “sistema”, a “mídia”) ou internas (os “auxiliares traidores”), nunca ao próprio mito. Assim, o medo do clã se transforma em devoção cíclica: cada ataque ao totem exige uma defesa mais ruidosa, cada crise exige um rito de passagem – o ato de ir às ruas, compartilhar uma fake news, entoar uma palavra de ordem. O trabalho de luto (aceitar a derrota eleitoral, por exemplo) é substituído por um trabalho de ressentimento: o tabu proíbe o luto porque o luto implicaria admitir que o totem pode morrer.
Escrever este texto não é reduzir milhões de brasileiros a “primitivos” – isso seria um elitismo simplório e anti-freudiano. Freud, aliás, mostrou que o totem e o tabu não são marcas de um estágio superado, mas estruturas psíquicas latentes em toda sociedade. A diferença é que sociedades com instituições sólidas, educação crítica e pluralidade de mídias conseguem criar rituais de dissidência – o debate, o voto alternativo, a imprensa livre – que atuam como válvulas de escape para o medo. Quando essas instituições enfraquecem ou são atacadas, o totem e o tabu retornam com força: a submissão deixa de ser escolha e vira refúgio.
O bolsonarismo, assim, não é uma patologia individual, mas um sintoma coletivo. O medo do clã pelo mito – o medo de perder a proteção imaginária, de enfrentar a alteridade, de lidar com a própria fragilidade – é o que mantém o animal totêmico vivo mesmo após a derrota nas urnas. Enquanto o tabu da crítica não for quebrado, enquanto o totem continuar sendo intocável, o que Freud chamou de “consciência de culpa” do grupo será projetada para fora: o inimigo é sempre o outro. E o clã, preso em seu medo de se dispersar, continuará marchando em volta do totem – cantando, rezando, ameaçando – na esperança de que o animal, um dia, devore seus predadores.



