

Tudo começa no Alvorada, num almoço de Páscoa. A primeira-dama Janja prepara uma paca com muito alho e ervas, dois dias de marinada, e serve ao presidente Lula. Ele elogia: “Divina”. Pronto. Bastou um garfo e uma filmadora para a paca virar ré nas redes sociais e na imprensa. Perguntaram: de onde veio? É legal? Cadê a nota fiscal do roedor? A caça é proibida? O Ibama foi avisado?
Em 24 horas, Lula foi condenado no tribunal do Twitter, do Instagram e do WhatsApp. Não por corrupção, não por malfeito na política — mas por comer um bicho de pelagem manchada. A fúria foi tanta que dava para marinar uma segunda paca só com o ódio líquido dos comentários.
Descemos para São José do Rio Preto, onde o vice-prefeito Fábio Marcondes (PL) era acusado de injúria racial. A vítima, um segurança do Palmeiras, teria ouvido um xingamento infeliz. A condenação parecia certa. As câmeras ligadas. O linchamento moral a caminho.
Até que… a paca entrou em cena.
Um laudo da Polícia Científica, com toda a seriedade de um episódio do A grande família, concluiu que o político não disse “macaco velho”, mas sim *“paca velha” *. A diferença? Um é crime. O outro é apenas um enorme desrespeito a um roedor idoso.
Os advogados de Marcondes, celebrados como heróis da semântica forense, “encontraram” uma paca vivíssima (e, coitada, velha) para atestar o improvável. Resultado: o vice-prefeito foi absolvido. A paca, dessa vez, não foi parar na panela. Foi parar na sentença.
Eis, então, a grande lição jurídico-gastronômica de 2026:
Se você é presidente e come uma paca, é condenado. Se você é vice-prefeito e chama alguém de “paca velha”, é absolvido.
A paca que condena, também absolve. Tudo depende do humor do Ibama, da fome do réu e da idade do roedor.
No fim, resta uma certeza: a paca é o novo oráculo brasileiro. Mais eficiente que o STF. Mais rápida que a PGR.
Diferentemente de muitos políticos, ela não morde — só aparece em laudos, em pratos e, vez ou outra, na ponta da língua de quem deveria estar em silêncio.


