

*Luiz Carlos Bordoni
Há uma distorção silenciosa — e cada vez mais sofisticada — no debate
político brasileiro. Não é mentira explícita. Não é fake news. É algo mais
refinado: a construção de uma realidade alternativa a partir de hipóteses.
Explico.Nos últimos dias, ganhou força a narrativa de que determinados nomes
“empatam com Lula no segundo turno”. O dado existe, é real, foi medido. Mas
o problema não está no número. Está no uso que se faz dele.
Porque, antes do segundo turno, existe o primeiro. E isso não é detalhe
técnico — é o coração do processo democrático. No primeiro turno, os números mostram outra fotografia. Lula lidera. Flávio
Bolsonaro aparece na sequência. E nomes como Caiado e Zema ainda patinam em índices de um dígito. Estão longe, neste momento, de garantir
presença na fase decisiva da eleição.
Mas o marketing — esse marketing esperto — faz uma escolha deliberada:
ignora a estrada e vende a linha de chegada.
Passa a impressão de que o jogo já está no segundo turno. Que a disputa já
está definida. Que determinados atores já estão no centro da arena final. Não
estão. Ainda precisam atravessar o campo mais difícil: o convencimento
inicial do eleitor. É aí que nasce o engodo.
Não se trata de falsificar números. Trata-se de reorganizar a percepção. De
colocar a hipótese no lugar da realidade. De fazer o possível parecer provável
— e o improvável parecer inevitável.
É uma inversão sutil, mas poderosa. O eleitor deixa de analisar quem tem
força hoje… para imaginar quem poderia ter amanhã. Sai do terreno concreto
e entra no campo da projeção. E, nesse ambiente, tudo pode ser moldado.
É estratégia? Sem dúvida. É inteligente? Também. Mas é, no mínimo, questionável do ponto de vista informativo. Porque a informação pressupõe contexto. E o contexto, nesse caso, começa pelo primeiro turno. Sem ele, o segundo turno não existe.
A insistência em destacar cenários finais, ignorando a etapa inicial, cria uma
espécie de “atalho narrativo”, um caminho mais curto e mais sedutor para influenciar percepções. E política, como sabemos, é também disputa de percepção.
No fundo, estamos diante de um fenômeno mais amplo: o da prevalência da
hipótese sobre a realidade. Um mundo onde o “poderia ser” ganha mais espaço do que o “é”. E isso não é apenas uma questão eleitoral. É um sintoma do nosso tempo.
Um tempo em que a narrativa, bem construída, pode se sobrepor ao fato. Em
que o futuro imaginado pesa mais do que o presente medido. E em que o eleitor, muitas vezes, é convidado não a decidir… mas a acreditar.
No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: Estamos sendo informados… ou estamos sendo conduzidos? Porque, entre uma coisa eoutra, existe uma diferença fundamental e é exatamente ali que a democracia se equilibra.
*É editor-chefe do portal www.canalcat.com.br


