
O salmista que escreve sob o efeito da ocitocina e da dopamina também vive inconscientemente a experiência da neuroplasticidade
O Salmo 88 representa, no cânon bíblico, um dos mais perturbadores testemunhos de sofrimento humano, pois desafia a teologia clássica da retribuição ao negar ao salmista qualquer vislumbre de consolação ou livramento. Hemã, o ezraíta, não apenas descreve a depressão — ele habita sua “cova profunda” como um prisioneiro sem luz, sentindo-se abandonado por Deus e isolado de todos os afetos humanos. Do ponto de vista teológico, essa ausência de uma resolução feliz no final do salmo não indica fracasso espiritual, mas sim a mais pura forma de fé: crer sem ver, clamar sem resposta imediata. Contudo, ao articular sua dor em palavras, ritmo e cântico, Hemã realiza, mesmo sem saber, um ato profundamente neuroplástico. A neurociência contemporânea demonstra que nomear emoções transfere a ativação cerebral da amígdala — o centro do medo e do trauma — para o córtex pré-frontal, região associada à regulação emocional e ao pensamento reflexivo. Assim, o grito de Hemã não é mero desabafo; é uma cirurgia espiritual no próprio cérebro.
Em termos neurocientíficos, a depressão severa tende a consolidar circuitos neurais de ruminação negativa e desamparo, um processo que o pesquisador Richard Davidson chama de “viés de negatividade” cerebral. Hemã, no entanto, interrompe esse ciclo repetitivo por meio de duas ações terapêuticas fundamentais. Primeiro, a oração persistente “dia e noite” — mesmo sem sentir alívio — funciona como um treinamento de atenção sustentada, fortalecendo vias neurais de busca ativa em vez de passividade. A repetição litúrgica, estudada por neurocientistas como Andrew Newberg, aumenta a densidade sináptica em regiões ligadas à intencionalidade e à regulação do estresse. Segundo, Hemã recusa a desconexão total: ele ainda se dirige a Deus como “o Deus da minha salvação”, uma afirmação de identidade divina que age como um marcador cognitivo contrário à “visão de túnel” da depressão. Esse foco deliberado na verdade teológica — e não no sentimento momentâneo — é o que Paulo chamará mais tarde de metanoia, a popular “renovação da mente” (Romanos 12:2), um princípio espiritual já operante na neuroplasticidade dirigida pela fé.
Finalmente, o fato de Hemã ser músico e transformar sua angústia em um “cântico” revela uma sabedoria integrativa que a teologia do sofrimento e a neurociência afetiva apenas agora começam a explicar em conjunto. A música ativa o sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina e ocitocina, neurotransmissores que atenuam a dor emocional e promovem sensações mínimas de conexão — mesmo na solidão absoluta descrita no versículo 18: “afastaste de mim amigos e companheiros”. Hemã não nega a escuridão, nem a disfarça com falsa alegria; ele a canta com honestidade integral. Essa aceitação sem rebeldia, sem culpa por sentir dor, impede que o cérebro adicione ao sofrimento primário o estresse secundário da negação ou da vergonha. Portanto, o Salmo 88 não é um fracasso espiritual, mas um modelo neuroteológico de resiliência: quando a libertação não vem, a própria ação de clamar — de externalizar, repetir, lembrar e cantar — já é o início da reconstrução interna. Hemã nos ensina que, mesmo na sensação de abandono total, o cérebro que busca a Deus está, silenciosamente, criando novas estradas na escuridão.
JAIR VIANA é formado em teologia pelo Instituto Teológico Quadrangular e certificado pelo Instituto Brasileiro de Neurociência.


