
Os efeitos colaterais do bolsonarismo é quase o mesmo dos fármacos que tratam ansiedade e depressão.
O conceito de dissonância cognitiva coletiva, conforme delineado no Texto 01, revela um fenômeno psicossocial que transcende o mero equívoco individual para configurar uma distorção sistêmica da realidade. Quando instrumentalizada por lideranças e amplificada por ecossistemas digitais, tal dissonância gera consequências deletérias, notadamente no âmbito da saúde pública. O movimento bolsonarista, ao persistir na defesa da cloroquina e da ivermectina contra a Covid-19 — atribuindo, de maneira desarrazoada, méritos ao ex-presidente Jair Bolsonaro —, constitui um estudo de caso paradigmático dos riscos inerentes a esse processo, demandando, como se argumentará, uma resposta enérgica das autoridades e das plataformas digitais.
O texto-base corretamente aponta para a criação de “looping narrativos” e o apoio a identidades contraditórias. A defesa obstinada do chamado “tratamento precoce” não se ancora em evidências empíricas — refutadas categoricamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela literatura científica de alto impacto —, mas em uma necessidade psicológica de preservar a coerência interna do grupo. Admitir a ineficácia da cloroquina seria, para essa base, reconhecer o fracasso de uma liderança e a irracionalidade de uma crença alimentada por meses. A dissonância cognitiva, portanto, opera como um escudo protetor que transforma derrotas científicas em vitórias políticas, substituindo o consenso da ciência por uma realidade paralela onde a lealdade ao líder sobrepõe-se à racionalidade instrumental.
Todavia, a manutenção dessa crença não é inócua; ao contrário, configura-se como uma violência epistêmica de consequências práticas severas. Ao difundir a falsa eficácia desses fármacos e atribuí-la a Bolsonaro, o movimento não apenas despreza o consenso científico global, como também coloca em risco a vida da população, estimulando a automedicação e a rejeição de protocolos comprovadamente eficazes. A ciência é clara: revisões sistemáticas demonstraram que tais drogas não reduzem internações ou mortes, além de apresentarem riscos significativos de efeitos colaterais. A insistência na narrativa, portanto, revela uma degeneração do debate público, onde a militância digital se torna um vetor de desinformação letal, minando a confiança nas instituições de saúde e na medicina baseada em evidências.
Diante desse quadro, impõe-se a atuação severa e imediata das autoridades estatais. A desinformação em massa, veiculada por canais bolsonaristas nas redes sociais, não se confunde com o exercício legítimo da liberdade de expressão; trata-se de um ataque sistêmico à integridade do conhecimento científico e à capacidade de decisão autônoma do cidadão. É imperativo que o poder público utilize os instrumentos legais disponíveis — como a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (em tramitação) e os dispositivos já existentes no Código Penal e na legislação sanitária — para rastrear, punir e desmontar as redes de disseminação dessas falsidades, protegendo a população de uma narrativa que já demonstrou seu potencial deletério durante a crise sanitária.
Ademais, a responsabilidade não recai exclusivamente sobre os emissores primários da desinformação. As plataformas digitais, ao monetizarem o engajamento gerado por teses conspiratórias — conforme elucida a noção de “monetização e engajamento” do Texto 01 —, assumem o papel de cúmplices estruturais na perpetuação da dissonância cognitiva coletiva. Seus algoritmos, desenhados para maximizar o tempo de tela, criam câmaras de eco que reforçam a negação da realidade e dificultam o contato com a informação factual. É urgente que o ordenamento jurídico as responsabilize civil e administrativamente pela manutenção e impulsionamento algorítmico dessas notícias falsas. A autorregulação mostrou-se insuficiente; a intervenção regulatória, com mecanismos de remoção célere, transparência algorítmica e prestação de contas, é condição sine qua non para a descontaminação do ecossistema informacional.
Em suma, a dissonância cognitiva coletiva, corporificada pelo movimento bolsonarista na defesa da cloroquina e da ivermectina, não é um fenômeno político periférico, mas um vetor de erosão da verdade e da confiança institucional. O combate a essa distorção requer uma frente integrada que alie o rigor científico, a força da lei contra os disseminadores e a responsabilização objetiva das plataformas. Somente assim será possível restabelecer o primado da realidade objetiva sobre as ficções identitárias que ameaçam a coesão social e a saúde coletiva, resgatando o compromisso democrático com a vida e com o conhecimento.



