
*Luiz Carlos Bordoni
O crescimento das apostas online no Brasil passou de entretenimento a um fator relevante de endividamento das famílias. Dados recentes apontam que, entre junho de 2023 e abril de 2025, os brasileiros movimentaram cerca de R$ 68 bilhões em plataformas de apostas. Só em 2024, o volume mensal chegou a aproximadamente R$ 20 bilhões, segundo estimativas baseadas em dados do Banco Central, consolidando o país como um dos maiores mercados do mundo no setor.
O alcance do fenômeno impressiona. Em 2025, cerca de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas de quota fixa, enquanto levantamentos anteriores indicam que até 23 milhões já participaram desse tipo de atividade. O gasto médio por apostador gira em torno de R$ 983 por semestre, valor significativo sobretudo quando analisado dentro da realidade de renda da população.
O impacto é ainda mais sensível entre as classes de menor renda. Entre 40% e 52% dos apostadores estão nas classes D e E, enquanto a classe C responde por cerca de 45%. Um dado que chama atenção é a participação de beneficiários de programas sociais: em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas ligadas ao Bolsa Família movimentaram aproximadamente R$ 3 bilhões em apostas via Pix. Em muitos casos, o dinheiro que deveria garantir o básico acaba sendo direcionado ao jogo.
Os efeitos já aparecem no cotidiano. Cerca de 19% dos apostadores afirmam ter deixado de comprar itens essenciais, como alimentos, para apostar. Além disso, os registros de afastamentos por vício em jogos — a chamada ludopatia — cresceram mais de 2.300% no período recente. O que se vende como promessa de ganho rápido tem, na prática, ampliado o ciclo de endividamento, pressionando ainda mais o orçamento das famílias brasileiras.
*É editor-chefe do portal www.canalcat.com.br



