
Jair Viana
Algumas famílias usaram a inteligência e a criatividade (foto), para responder à crítica da escola Acadêmicos de Niterói
A recente crítica de parte das lideranças evangélicas conservadoras à escola de samba Acadêmicos de Niterói, que utilizou latas de conserva para ironizar o conceito de “família tradicional”, revela uma profunda incoerência. Ao se sentirem provocados por uma manifestação artística que expõe o que pregam, esses grupos demonstram não suportar o mesmo pluralismo que suas pautas, muitas vezes, buscam restringir no espaço público. A escola, ao criar a alegoria, exerceu sua liberdade de expressão para escancarar um modelo familiar que é defendido como único e universal, mas que, na prática, é alvo de críticas e sátiras como qualquer outra instituição social. A igreja de hoje, que defende a família tradicional, abre mão de princípios caros à igreja de ontem.
O artigo que analisa o pensamento de lideranças evangélicas apoiadoras de Jair Bolsonaro corrobora essa postura ao identificar uma força social “moralmente reguladora”, que tenta impor seus valores religiosos como base da moralidade pública. Defendem a família heteronormativa como um pilar intocável, frequentemente associando qualquer desvio desse padrão a uma ameaça à sociedade. Essa visão, ancorada em preceitos bíblicos, busca se sobrepor à diversidade real da população, criando um ambiente de pouca abertura para a diferença, como aponta a pesquisa.
O texto de viés conservador, que define o conservador como aquele que prefere o “familiar ao desconhecido”, evidencia justamente o ponto de tensão. Ao rotular outros arranjos familiares como “desconhecidos” ou experimentalismos perigosos, esses grupos negam a legitimidade de vivências que não se encaixam em seu dogma. A resposta agressiva à crítica carnavalesca, portanto, não é apenas uma defesa de um modelo familiar, mas a reação de quem vê sua narrativa de superioridade moral desconstruída pelo deboche legítimo de uma manifestação cultural que, em sua essência, é livre para questionar e refletir a sociedade em toda a sua complexidade.
Cabe à Igreja a defesa da família tradicional, considerando seu embasamento bíblico dogmático. Não é crime e nem pecado defender suas convicções. O problema surge quando os evangélicos querem impor à sociedade as suas crenças, dogmas e convicções. A família tradicional no âmbito da igreja é coerente, mas fora desse ambiente, não cabe imposição.



