A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que representa os empresários do setor, pensa da mesma forma. O presidente-executivo, Paulo Solmucci, adverte que a falta de empregados vai provocar uma disputa desigual pela mão de obra, com efeitos negativos em parte dos estabelecimentos comerciais:
— Como não haverá profissionais novos para suprir toda a demanda, restaurantes, bares, supermercados e clínicas de regiões mais ricas acabarão “tomando”, com salários mais altos, os trabalhadores de estabelecimentos menores localizados em áreas mais pobres. Isso forçaria a precarização ou, pior, o fechamento de negócios em favelas e periferias.
De acordo com ele, essa migração da mão de obra ainda criaria um efeito colateral para o próprio empregado. Ao precisar se deslocar do seu bairro na periferia para cobrir as vagas nas áreas centrais e mais ricas, ele passaria muito mais tempo no transporte público.
— Indo trabalhar nas regiões ricas, esses trabalhadores vão passar mais tempo dentro do ônibus. Sendo, por exemplo, duas horas para ir e outras duas para voltar, em cinco dias serão 20 horas gastas no transporte. Ou seja, muito mais do que as horas semanais que deixariam de ser trabalhadas com o fim da escala 6×1 e a adoção da 5×2.
Solmucci diz que é preciso separar os dois grandes assuntos contidos na proposta de diminuição da carga de trabalho:
— O melhor caminho para o Brasil hoje seria não mexer na escala 6×1 e concentrar o debate apenas no enorme desafio de reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais.
Segundo o presidente da Abrasel, quatro horas a menos na jornada implicam custos elevados, mas, havendo um “período de transição razoável”, o setor produtivo poderia buscar ganhos de produtividade de modo a minimizar esses custos e o seu impacto nos preços. A sugestão é que a jornada seja reduzida gradualmente ao longo de pelo menos cinco anos.
— Não será um desafio trivial. Nos últimos 40 anos, conseguimos aumentar a produtividade em apenas 20%. Se mantivermos esse ritmo, levaremos 20 anos para compensar a redução da jornada. Acreditamos, porém, que com inteligência artificial, automação e reforma tributária, talvez seja possível fazer em cinco anos o que antes demorava duas décadas e, assim, não repassar todo o custo para o consumidor.
O que a Abrasel rejeita no projeto é a troca da escala 6×1 pela 5×2. Além da entrave de disponibilidade de mão de obra, essa mudança envolve custos que o setor produtivo não conseguiria suportar, segundo a associação. Para cobrir o dia extra de descanso de cada empregado, diz o presidente, as empresas teriam que contratar 20% a mais de funcionários.
Na visão de Solmucci, a promessa de que os salários não serão reduzidos é “falaciosa” na prática, ainda que isso esteja estabelecido na nova norma:
— Um garçom que hoje trabalha seis dias vai perder um dia de serviço e, junto com ele, a gorjeta daquele dia. O mesmo acontece com quem vive de vendas no comércio, que recebe comissão. Para esses empregados, a renda extra faz diferença. E a situação ficará ainda pior para eles se o descanso for no sábado, dia em que o movimento e o consumo são mais altos.


