Como o CNPq participou da sua carreira acadêmica e profissional?
Minha trajetória como astronauta e minha vida pública sempre estiveram ligadas à educação científica. Primeiro, o CNPq me ajudou como cientista. Depois, quando estive à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, trabalhei para fortalecê-lo em um momento crítico. Acompanhei os desafios orçamentários que ameaçavam milhares de bolsas de pesquisa, algo que impactaria profundamente a formação de novos cientistas. Por isso, lutei pela recomposição de recursos, pela continuidade dos programas e pela preservação da estrutura do conselho. Por fim, como senador, continuo defendendo um CNPq forte, estável e com orçamento digno, porque sei que o futuro da ciência, da tecnologia e da inovação brasileiras depende disso.
É possível imaginar como estaria hoje a ciência no país se o CNPq não existisse?
A ausência do CNPq criaria um vácuo impossível de ser preenchido apenas pela iniciativa privada ou pelos estados. A realidade seria dramática sem uma rede consistente de mestres, doutores, institutos e universidades capazes de produzir ciência de alto nível, sem pesquisas estratégicas em áreas como saúde, agricultura, energia, espaço, defesa e meio ambiente e sem políticas de fomento que permitem ao jovem pesquisador iniciar sua carreira. Em termos concretos, seríamos um país mais vulnerável, menos competitivo e com menor capacidade de inovação. Teríamos um número muito menor de pesquisadores qualificados, uma redução drástica na produção científica e tecnológica, maior fuga de cérebros — já que talentos buscariam oportunidades no exterior — mais dependência internacional em setores estratégicos e maior dificuldade de responder a pandemias, desastres ambientais e desafios energéticos. O CNPq, como uma das colunas centrais da ciência brasileira, é um instrumento de soberania nacional.
Que mudanças deveriam ser feitas para que o CNPq funcione melhor?
É preciso que haja menos burocracia e mais agilidade nos editais e liberações; programas que conectem pesquisadores e o setor produtivo; maior incentivo a projetos de alto impacto e de fronteira tecnológica; e a modernização dos sistemas de avaliação e acompanhamento. O principal problema do CNPq não é técnico, mas financeiro. A ciência brasileira sofre ciclos de escassez que prejudicam continuidade, planejamento e formação. Uma agência como o CNPq não pode trabalhar no improviso, já que ciência é investimento estratégico para qualquer nação que deseja ser competitiva, independente e inovadora. É necessário um orçamento estável, previsível e crescente, compatível com a demanda nacional. No Senado, apresentei propostas que enfrentam essa questão. Uma delas é a PEC 31/2023, que estabelece um incremento gradual de no mínimo 2,5% do PIB para a ciência e tecnologia. Outra é a PEC 26/2025, que protege o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, proibindo o contingenciamento dos recursos. Defendo que o CNPq tenha proteção orçamentária, como ocorre em países líderes em ciência. Só assim garantiremos que o Brasil não dependa de ciclos políticos para continuar formando gerações de cientistas, desenvolvendo tecnologia, gerando inovação e impulsionando o desenvolvimento nacional.


