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Exposição explora presença de Exu na cultura afro-brasileira

by Redação
28/03/2026
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Exposição explora presença de Exu na cultura afro-brasileira
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Um dos orixás mais incompreendidos fora dos terreiros, Exu é aquele que concede licença para se concretizar qualquer coisa e protege a encruzilhada, espaço destinado a transições do espiritual para o físico e de fases da vida, na perspectiva de umbandistas, candomblecistas, quimbandistas e outros seguidores de religiões de matriz africana.

Esse indispensável comunicador está representado na exposição Padê – sentinela à porta da memória, aberta até 26 de julho, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. 

Padê é como se denominam as oferendas dadas a Exu, Oxalá, Ogum, Oxum, Iemanjá, Oxóssi, Oxumaré, Xangô, Iansã, Nanã, Omulu, Ewá, Obá, Ossaim e outros orixás, para pedir ajuda diante de dificuldades ou celebrá-los.

Com curadoria de Rosa Couto, doutora em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), a mostra foi organizada em três seções. 

Em África, enfatizam-se os rituais e os diálogos relacionados à divindade. 

Na divisão batizada de Travessia, o público conhece mais suas manifestações enquanto figura ligada ao movimento, a estradas, oceanos e ruas. 

Na terceira subdivisão, Diáspora, as obras de arte retratam o modo como Exu aparece nas religiões afro-brasileiras. 

Na lista de artistas participantes da exposição, estão Emanoel Araujo, Sidney Amaral, Gustavo Nazareno, Carla Désirée, Felix Farfan, Ronaldo Rêgo, Mario Cravo Neto, Pierre Verger, Mestre Didi, Moisés Patrício, Georges Liautaud, Rafaela Kennedy, Rochelle Costi e Juliana Araujo. 

Como outros orixás cultuados no Brasil, cujos mitos revelam qualidades e também emoções e comportamentos que os aproximam dos humanos, como raiva, vingança e ciúmes, Exu é uma deidade complexa. 

Nele não há uma dualidade tão engessada, com o bem de um lado e o mal de outro e o sagrado separado do profano. 

Por influência do cristianismo, Exu acabou sendo visto, erroneamente, como o diabo, imagem que alguns sustentam e disseminam até hoje. 

Artista que apresentou uma performance na quinta-feira (26), no museu, Ayô Tupinambá explica que, além dos exus masculinos, como Tranca Rua, Sete Encruzilhadas, Exu Caveira, Sete Catacumbas e Capa Preta, há exus femininas, as pombagiras (pombogiras, bombogira ou outros termos de grafia e sonoridade similares, já que são religiões guiadas pela oralidade, que gera variações, pela forma como os saberes são repassados). 

São largamente conhecidos nos terreiros as gargalhadas e os leques e as saias agitadas de Maria Mulambo, Maria Padilha, Maria Quitéria e outras mulheres famosas por desafiar a moralidade e o patriarcado, não se submetendo a opressões.

O tema escolhido pela performer umbandista para a apresentação foi Exú-Mulher, nome de um de seus álbuns, por meio do qual narra suas experiências com as entidades. 

A performance aconteceu no âmbito do projeto Negras Palavras, que já recebeu Juçara Marçal, Tiganá Santana e Fabiana Cozza.

Exus e pombagiras assemelham-se a santos, no sentido de que também têm imagens colocadas em uma espécie de altar, em que se acendem velas, entre outros itens, conforme sua função. 

Elas são presenteadas, geralmente, com rosas, mel e vinho, ao passo que são do agrado também artigos como o marafo (bebida alcoólica), ovos e cigarros.

“As pombogiras são ancestrais, negras, indígenas do Brasil, que, por algum motivo, acabaram morrendo e voltam, dentro desses cultos, para nos orientar sobre nossas dificuldades, nossas lutas”, explica Ayô Tupinambá. 


São Paulo (SP), 27/03/2026 - Musicista Ayô Tupinambá (à dir.) fala sobre seu álbum Exú-Mulher na exposição “Padê – sentinela à porta da memória”, no Museu Afro. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil
São Paulo (SP), 27/03/2026 - Musicista Ayô Tupinambá (à dir.) fala sobre seu álbum Exú-Mulher na exposição “Padê – sentinela à porta da memória”, no Museu Afro. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

Musicista Ayô Tupinambá (D) fala sobre seu álbum Exú-Mulher na exposição Padê – sentinela à porta da memória” – Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

“Gosto muito do conceito de que elas passaram por algumas lutas e vêm até nós para que a gente não passe mais por esse lugar. Na maioria das vezes, foram cortadas, retaliadas, machucadas, feridas e vêm para nos proteger, nos fortalecer. É muito simbólico, dentro da programação do museu, trazer esse trabalho, principalmente com o aumento da violência contra mulheres”, diz Ayô. 

O canto de Ayô chegou antes dela ao salão próximo à porta de entrada do museu. 

Vestida com indumentária usada por cavalos (médiuns que incorporam entidades nas giras) de pombagiras, vermelha e preta, cores também associadas aos exus masculinos, mostrou aos visitantes um padê, informando que ingredientes geralmente são misturados no alguidar, recipiente bastante utilizado para esse fim. 

Outro simbolismo da oferenda é referente à unidade do terreiro. 

A atividade contou com a presença de estudantes do ensino fundamental de um colégio particular que assistem a aulas de artes e de cultura popular. 

Frequentadora de uma casa comandada por uma mulher trans, Ayô, auto identificada como travesti afroindígena, ficou inserida em outra comunidade religiosa por quase toda sua vida. 

Com uma colocação de Maria Mulambo sobre ela se parecer com as pombagiras, iniciou-se no universo dos terreiros.

Dois anos depois, teve seu primeiro contato com a sua pombagira. Conforme foi se entregando aos trabalhos no terreiro, apagou a ideia de que tais entidades eram um mal a ser combatido, como lhe ensinaram no longo período em que viveu sob outro credo.

Censo

Segundo o último Censo Demográfico, de 2022, a proporção de brasileiros católicos diminuiu a partir de 2010, embora continue liderando em todo o país, com maior concentração no Nordeste e no Sul. 

Ao mesmo tempo, constatou-se um aumento na parcela umbandista/candomblecista, de 0,3% para 1% e mais presença nas regiões Sul e Sudeste. 

“Dentro das nossas religiões, a gente não acredita no diabo. A gente acredita em autorresponsabilidade, que aquilo que eu faço de bom, de ruim, tem a ver comigo. Não tem como eu culpar uma terceira pessoa, um terceiro ser, por aquilo que eu faço”, disse. 

“É muito curioso como as populações vulnerabilizadas se apropriam daquilo que as pessoas jogam contra elas. É muito comum ter nessas ferramentas esses tridentes, que as pessoas acabam relacionando ao diabo cristão, mas são um pedaço de ferro para simbolizar o poder e a força dessa entidade”, pontua Ayô. 

Serviço

  • Exposição Padê – sentinela à porta da memória
  • De 21 de março a 26 de julho de 2026
  • Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
  • Parque Ibirapuera – Portão 10 – São Paulo – SP
  • Curadoria: Rosa Couto
  • Comitê Curatorial: Vera Nunes, Renata Dias e Maurício Pestana
  • Viabilização: Lei Rouanet
  • Patrocínio: Vivo





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