
Jair Viana
“Confie em Deus, e mantenham a pólvora seca.” (Oliver Cromwell, puritano)
É preciso acender um sinal de alerta: o casamento entre parte das igrejas evangélicas e o bolsonarismo não foi um encontro circunstancial, mas a consolidação de uma identidade política que confunde fé com projeto de poder. O nacionalismo cristão que emerge desse enlace não é mera expressão religiosa, mas uma ideologia que sonha com um Estado teocrático onde valores conservadores específicos sejam impostos como lei universal. Esse segmento, que já demonstra imensa dificuldade em aceitar a diversidade e o contraditório, vê qualquer derrota eleitoral não como parte do jogo democrático, mas como afronta espiritual a ser combatida.
“Em todos os municípios de Massachussets, no ano de 1640, havia o costume dos crentes puritanos irem ao culto levando armas de fogo, pólvora, munição e espadas. Um homem armado para cada família era considerado o suficiente.”
O perigo real está na escalada retórica e na disposição para ações mais graves. Se o bolsonarismo sofrer nova derrota nas urnas, lideranças que há anos pregam que “inimigos” (leia-se esquerda, movimentos sociais, imprensa) querem destruir a família e a fé cristã podem facilmente transmutar a frustração política em convocação para uma “guerra santa” defensiva. O histórico de intolerância já documentado, que inclui ataques a religiões de matriz africana e a minorias LGBTQIA+, mostra que parte desses grupos já opera com lógica de inimigo interno. A radicalização, nesse contexto, não é cenário distópico, mas desdobramento lógico de um discurso que sataniza adversários e sacraliza projetos políticos.
“Então, uma vez, por temer ataques indígenas, nossos antepassados levavam suas armas ao se reunirem, cada homem equipado no domingo de manhã com o livro de Salmos, munição e pólvora.
E considerado em forma, como todos devem admitir, como a antiga e verdadeira Igreja militante”(John Trumbull
O nacionalismo cristão com viés autoritário não é fenômeno exclusivamente brasileiro, mas aqui encontra terreno fértil na combinação de poderio econômico das megaigrejas, capilaridade comunitária e ausência de freios institucionais em vastas regiões. Uma eventual guinada radical pós-derrota eleitoral poderia materializar-se em milícias digitais armadas, obstrução violenta de políticas públicas ou tentativas de desestabilização institucional com apoio de setores das forças de segurança. A história das guerras civis religiosas ensina que quando fé e poder político se fundem na recusa da alternância democrática, o preço pago pela sociedade é sempre o sangue dos que ousam pensar diferente.
“Depois, em 1642, consideravam que em cada igreja seis homens armados com mosquetes, pólvora e munição, seriam suficientes para garantir a proteção dos crentes.”
As frases em destaque neste texto, para evitar interpretações precipitadas, foram extraídas do portal abaixo: https://reformedbrainstorm.com/2021/10/21/calvinistas-legitimos-usam-armas-de-fogo/


