O atual Conselho de Segurança da ONU equivale, com algumas diferenças, ao antigo Conselho Executivo da Liga das Nações. Desde 2003, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil pleiteia um assento permanente no conselho da ONU, para juntar-se ao chamado P5 — Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, países vitoriosos na Segunda Guerra Mundial. Existem ainda dez países com assento temporário, mas apenas o P5 tem poder de veto.
A professora Norma Breda dos Santos, que atua no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e tem estudos sobre a Liga das Nações, diz que o pleito do Brasil na ONU é legítimo e faz parte do jogo diplomático:
— Lembro que, anos atrás, praticamente toda autoridade estrangeira que desembarcava aqui, fosse presidente, fosse ministro, fazia questão de declarar apoio à candidatura do Brasil. Mesmo sendo pequenas as chances de sucesso, a própria manutenção da candidatura é uma ferramenta útil para projetar-se internacionalmente e manter-se em evidência na agenda diplomática global
De acordo com ela, o sucesso é praticamente impossível porque esbarra na lógica da manutenção do poder, que já existia em 1926 e permanece ainda hoje:
— Nas organizações internacionais, reforçam-se as hierarquias já existentes. Aceitar a entrada de um novo membro permanente no Conselho de Segurança significaria diluir o poder das cinco grandes potências. Elas não abrem mão do seu monopólio. A resistência não é ao Brasil especificamente. Qualquer país que entrasse afetaria essa hierarquia dentro da ONU.
Eugênio Garcia enxerga nos dois casos um curioso comportamento do Brasil no cenário internacional:
— Existe uma oscilação contraditória na nossa mentalidade diplomática, que vai do excesso de autocrítica à forte ambição de ser uma potência. O complexo de vira-lata convive com a crença arraigada de que o país está destinado a grandes coisas por causa do seu amplo território e da sua imensa população.
O diplomata e historiador afirma que pleitear um assento permanente em uma organização internacional exige realismo e estratégia. Para ele, a candidatura não pode ser tratada como mera questão de prestígio:
— É preciso clareza de objetivos, saber para que serve o conselho, o papel de um membro permanente e, sobretudo, por que o país deseja essa posição. Na década de 1920, o Brasil errou a mão e investiu pesadamente sem avaliar a viabilidade política nem ler corretamente o contexto. A falta de uma meta clara levou à frustração e, por fim, à saída abrupta da Liga das Nações.


