

Na primeira foto, Maluf, ironicamente, à esquerda, seguido por Ciro Nogueira, presidente do PP, e Alberto Haddad, sobrinho de Maluf.
A política brasileira, em sua complexidade, guarda a figura ambígua de Paulo Maluf (foto), cuja ausência no cenário partidário atual evidencia um vácuo tático peculiar. Sua carreira, marcada por uma capacidade ímpar de execução de grandes obras de infraestrutura, deixou uma herança material indelével em São Paulo, do Minhocão aos conjuntos habitacionais. Mais do que um gestor, Maluf personificava o arquétipo do “fazedor”, um político que, independentemente das críticas, canalizava sua energia em projetos concretos e de impacto visível, uma habilidade que ressoava fortemente com parcelas do eleitorado.
Sua astúcia política, no entanto, ia muito além do canteiro de obras. Maluf era um estrategista nato, um mestre na articulação partidária e na leitura das conjunturas. A criação do PPR em 1993, fundindo legendas para formar a terceira maior bancada do Congresso, foi uma manobra clássica de sua visão de poder, ampliando sua base e seu tempo de rádio e TV em um movimento calculado para a corrida presidencial. Sua trajetória eleitoral, com vitórias e derrotas acirradas, demonstrava uma resiliência e uma conexão pragmática com bases conservadoras e com o eleitorado que valoriza a ação sobre o discurso.
A falta que Maluf faz hoje é, paradoxalmente, a de um tipo de habilidade em desuso: a do operador político de larga escala, que mescla o populismo das obras com uma argúcia brutal para a sobrevivência e a negociação nos bastidores. Sua escola, a das “raposas”, entendia o jogo do poder em suas múltiplas dimensões, da infraestrutura às alianças espinhosas. Enquanto novas gerações navegam entre o moralismo e o pragmatismo digital, o legado malufista persiste como um lembrete de um estilo de política visceral, eficaz em seus objetivos imediatos e carregado de um peso ético que seu próprio símbolo, o trevo de quatro folhas, nunca conseguiu ofuscar completamente.
Tive várias oportunidades de entrevistar Maluf em meus programas de rádio. Na maioria delas teve um componente típico: a polêmica. Ele não deixava pergunta sem resposta e era habilidoso com as palavras.
Em 2002, no ápice da campanha para governador, Maluf, como sempre, concedeu entrevista ao vivo, por telefone. O clima esquentou depois da pergunta sobre o famoso “rouba, mas faz”.E a raposa política deixou sua marca ao questionar minha preferência sexual.
Sabendo da intenção dele, de esticar a conversa, fui encaminhando para o final da entrevista. Mais tarde, passado o momento tenso no ar, Maluf fez uma ligação para se desculpar pelo excesso. Tudo ficou bem.
Paulo Maluf é daqueles políticos de raciocínio rápido e hábil no uso de frases de efeito. Muito antenado, dificilmente caía em peladinhas com perguntas embaraçosas. Hoje, fora de combate, o velho bom Maluf apenas observa o barulho político. Ele faz falta na política!


