
*Luiz Carlos Bordoni
A expressão é provocação. Metáfora. Ironia. Mas serve para refletir.
Durante anos, ouvimos falar em ruptura institucional, tanques nas ruas, fechamento do Supremo, suspensão de eleições. Nada disso aconteceu. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe. Agora, o que se desenha — segundo aliados e adversários atentos — não é ruptura. É estratégia. Se não tomou pela força, tomará pelo voto.
A lógica é clara: manter Tarcísio de Freitas forte em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, garantindo bancada robusta na Câmara e dois senadores alinhados ao projeto. Lançar Flávio Bolsonaro como candidato presidencial mais moderado, mais centrado, menos inflamado que o irmão. Construir uma maioria sólida no Congresso. Tudo dentro das “quatro linhas”.
O que isso significa? Significa governar com força suficiente para pautar o país, pressionar instituições e reequilibrar poderes. Um Senado numericamente forte pode tensionar o Supremo Tribunal Federal, propor mudanças, discutir limites, influenciar futuras indicações. Uma Câmara alinhada controla agenda, CPIs, orçamento e reformas.
Nada ilegal. Nada fora da Constituição. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: democracia é apenas vencer eleições ou é também preservar freios e contrapesos?
Maiorias são legítimas. O voto é soberano. Porém, quando uma maioria passa a agir não como alternância, mas como projeto de domínio prolongado — capaz de inviabilizar adversários e reconfigurar o sistema para manter-se no controle — entramos num terreno sensível.
Não se trata de ditadura. Não se trata de ruptura formal. Trata-se de hegemonia construída por engenharia eleitoral. A história mostra que democracias não morrem apenas com golpes clássicos. Às vezes, enfraquecem por dentro, gradualmente, por meio de maiorias que deixam de aceitar limites.
O eleitor decidirá. Mas é prudente observar os movimentos. Não com medo. Com consciência. Porque jogar dentro das quatro linhas é saudável. Desde que ninguém queira redesenhar o campo após ganhar o jogo.
*É Jornalista



