
A carta de Flávio Bolsonaro a Donald Trump escancara não apenas a fragilidade eleitoral da direita brasileira, mas sobretudo o histórico de subserviência que marca a relação dos Bolsonaro com o presidente americano. Ao pedir apenas o adiamento do tarifaço, e não sua extinção, o senador age como um aliado que aceita a punição econômica imposta pelos EUA, desde que ela não atrapalhe sua campanha — uma postura que lembra mais um vassalo do que um representante da soberania nacional.
Mais grave que a admissão de fragilidade, porém, é a aceitação tácita da tarifa como um dado irreversível. Flávio não questiona a legitimidade da sobretaxa de 25%; ele apenas negocia o melhor momento para aplicá-la, como se o interesse do país fosse uma variável subordinada à agenda eleitoral da família. A lógica é perversa: o prejuízo à indústria, ao agronegócio e aos consumidores brasileiros é aceitável, contanto que não apareça nas manchetes antes de outubro.
O resultado prático é o oposto do pretendido. A carta virou munição para Lula acusar a oposição de “entreguista” e “traidora da pátria”, além de enfraquecer o poder de barganha do Brasil ao expor antecipadamente a estratégia de negociação. Ao não contestar a tarifa em si, Flávio revelou que seu compromisso não é com o interesse nacional, mas com o próprio destino nas urnas — e, nesse movimento, acabou fortalecendo justamente quem queria enfraquecer.
O puxa-saquismo não é novidade na política externa bolsonarista, que sempre tratou Trump como um ídolo a ser imitado, não como um interlocutor a ser confrontado. Desta vez, porém, a submissão ultrapassou o campo retórico e ganhou contornos de chantagem eleitoral: o filho do ex-presidente negocia com Washington a data do golpe econômico contra o próprio país. Mais do que um erro tático, a carta é um atestado de que, para os Bolsonaro, os interesses dos EUA e da própria família valem mais que a soberania e o emprego dos brasileiros.
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