
O bolsonarismo, enquanto fenômeno político contemporâneo, ultrapassa os limites da disputa institucional e se consolida como uma forma específica de organização do sentido, do tempo e da subjetividade. Neste texto proponho uma leitura filosófica do bolsonarismo a partir do mito de Sísifo, de Albert Camus, argumentando que o movimento opera como um regime de repetição absurda administrada, no qual o sofrimento político é naturalizado e convertido em identidade.
Para Camus, emerge do confronto entre a busca humana por sentido e a indiferença do mundo. No entanto, o absurdo só se torna filosoficamente decisivo quando reconhecido conscientemente. A tragédia de Sísifo não está apenas no esforço interminável, mas na lucidez que acompanha esse esforço.
O bolsonarismo neutraliza esse potencial de emancipação ao impedir a consciência do absurdo. Seus seguidores são mantidos em um estado permanente de mobilização afetiva, no qual a ausência de resultados não gera reflexão, mas redobra a crença. O fracasso não interrompe o ciclo — ele o alimenta.
A recorrente expectativa das “72 horas” funciona como um mecanismo de suspensão do tempo histórico. Trata-se de uma forma de escatologia política mínima, que substitui projetos concretos por promessas imediatas e sempre adiadas. O futuro nunca chega; ele apenas se aproxima infinitamente.
Essa lógica produz um tempo circular, não cumulativo, no qual não há aprendizado político nem elaboração do erro. Assim como Sísifo retorna ao pé da montanha, o sujeito político retorna ao ponto zero, convencido de que agora o desfecho será diferente.
O uso de símbolos como pneus em atos de apelo espiritual revela a dissolução das fronteiras entre política, religião e superstição. Quando a política falha, apela-se ao transcendente; quando o transcendente silencia, apela-se ao extraordinário — inclusive à imaginação de intervenções extraterrestres.
Esse deslocamento revela uma recusa sistemática da responsabilidade histórica. A causa disso nunca está errada; o mundo é que conspira contra ela.
O bolsonarismo pode ser compreendido como um dispositivo que transforma indivíduos em Sísifos sem lucidez: sujeitos condenados a empurrar uma pedra simbólica indefinidamente, acreditando que o sentido está sempre a poucos metros do topo.
A ruptura não ocorre por meio de uma vitória política final, mas pelo gesto camusiano da consciência: reconhecer o absurdo, recusar a promessa e aceitar a angústia da liberdade sem garantias.

