
A figura de Jair Bolsonaro na política brasileira encontra um perturbador paralelo no conceito de Hanna Arendt da banalidade do mal. Sua retórica e prática política, sistematicamente anticívica, operam não por uma suposta grandeza maligna, mas por uma vulgarização calculada dos valores democráticos. Ele representa um mal político corrosivo, que não se apresenta como monstro épico, mas como a normalização da violência verbal, do desprezo pelas instituições e do culto à ignorância como virtude. Esta é a essência do perigo: a transformação do absurdo antiético em ferramenta ordinária de governo.
Seus seguidores mais fervorosos personificam essa banalização, ao tratarem a democracia e o Estado de Direito como obstáculos a serem contornados, e não como fundamentos inegociáveis da vida coletiva. Assim como Oskar Matzerath, em “O Tambor”, recusa-se a crescer e adota uma perspectiva distorcida da realidade, os bolsonaristas frequentemente se recusam a amadurecer para as complexas demandas da cidadania. Eles banalizam o processo democrático ao romantizar o autoritarismo, ignorando os princípios básicos de convivência que impedem a barbárie.
A passividade ou adesão acrítica a esse projeto é o terreno fértil que Arendt tão bem diagnosticou. O mal político de Bolsonaro se espalha não pelo brilho de uma ideologia sofisticada, mas pela renúncia ao pensamento independente e ao julgamento moral de parte da sociedade. A lição que fica é a urgência de recusar essa banalização, de crescer para a responsabilidade política e de bater o tambor da vigilância democrática contra aqueles que querem silenciar sua percussão crítica e libertadora.

