
A estupidez e a ignorância ao extremo
A recente campanha publicitária das Havaianas, estrelada pela atriz Fernanda Torres, gerou polêmica e dividiu opiniões. Enquanto alguns a interpretaram como um gesto humorístico, outros a enxergaram como uma declaração política provocativa. No entanto, mais do que discutir os envolvidos ou os lados do debate, o episódio revela um fenômeno social preocupante: a ascensão do fanatismo em nossa vida coletiva.
Trata-se do momento em que a convicção, em vez de guiar, ofusca o raciocínio. Quando o debate público deixa de ser uma troca de ideias em prol do bem comum e se degenera numa disputa tribal, na qual o outro é visto não como um concidadão com perspectiva diferente, mas como um inimigo a ser aniquilado.
O fanatismo, seja ele religioso ou político, opera pela mesma lógica reducionista. Ele converte conceitos complexos em dogmas inflexíveis, eleva líderes à condição de messias e transforma divergências em heresias ou traições. Nesse terreno árido, qualquer elemento — uma frase fora de contexto, uma peça de marketing ou até um objeto cotidiano — pode se tornar a faísca para um novo conflito.
Assim, a questão crucial talvez não seja determinar se tal campanha tinha uma intenção política ou não. Talvez devêssemos nos perguntar, com mais urgência: por que estamos tão predispostos ao ódio? Por que nossa reação padrão é a de atacar, e não a de compreender?
Uma fé verdadeiramente sólida não precisa ser vociferada. Uma prática política saudável não cultua personalidades. A maturidade de um indivíduo ou de uma sociedade se mede justamente pela capacidade de discordar com respeito, preservando o diálogo e a humanidade do outro.
Quando chegamos ao ponto em que uma simples sandália pode detonar um escândalo nacional, é um sintoma claro de que, no fundo, estamos carentes dos atributos mais básicos para uma convivência civilizada: a inteligência para discernir e a sabedoria para conviver com as diferenças.
Diante do que estamos vivendo, talvez o melhor fosse transformar a ficção da produção “A Grande Inundação” em realidade. Que a doutora An-Na e o pequeno Ja-in nos levassem a um estágio de sentimento processado pelo Motor de Emoção, nos colocando no lugar de onde nunca deveríamos ter saído.


