
*Luiz Carlos Bordoni
Flávio Bolsonaro voltou dos Estados Unidos trazendo um fato político importante. A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos americanos lhe permitiu assumir o papel de protagonista de uma pauta que mobiliza a opinião pública: o combate ao crime organizado.
Politicamente, a operação foi bem-sucedida. O senador ganhou espaço na imprensa, reforçou seu discurso de segurança pública e voltou a ocupar o centro das atenções nacionais. Mas existe um detalhe que a repercussão da viagem não elimina: as dúvidas sobre o financiamento do filme Dark Horse continuam existindo.
A Polícia Federal investiga movimentações financeiras relacionadas ao projeto. Áudios, mensagens, contratos e negociações já vieram a público. O próprio Flávio, que inicialmente negou qualquer relação com Daniel Vorcaro, posteriormente admitiu contatos, reuniões e tratativas envolvendo recursos destinados à produção.
O caso deixou de ser uma questão privada. Tornou-se um tema de interesse público. Quando milhões de reais transitam entre fundos de investimento, empresas, contratos internacionais e pessoas ligadas a figuras políticas, a sociedade tem o direito de entender exatamente o que aconteceu. Não se trata de condenar previamente ninguém. Trata-se de esclarecer.
Qual foi o valor efetivamente aportado? Por quais fundos os recursos circularam? Quem autorizou as operações? Qual foi o destino final do dinheiro? Houve remessas ao exterior? Quais contratos regulavam essas transferências?
São perguntas legítimas. Mais ainda porque Daniel Vorcaro se tornou personagem central de investigações envolvendo suspeitas graves de irregularidades financeiras. O fato de uma pessoa estar sendo investigada não torna automaticamente ilegais todas as suas relações comerciais, mas aumenta a necessidade de transparência daqueles que com ela mantiveram negócios ou parcerias.
Flávio Bolsonaro tem o direito de afirmar sua inocência. Tem o direito de contestar as investigações. Tem o direito de se defender. O que não parece razoável é imaginar que o assunto desaparecerá apenas porque ele declarou que não pretende mais comentá-lo.
Em uma democracia, homens públicos não escolhem sozinhos quais perguntas devem ser respondidas, ainda mais quando pretendem ocupar o mais alto cargo da República. A viagem a Washington produziu um gol político, mas esse gol não apaga as dúvidas que permanecem sobre contratos, repasses, fundos e movimentações financeiras.
Ao contrário. Quanto mais alta a posição que alguém deseja ocupar, mais rigorosa deve ser a prestação de contas. No fim das contas, a discussão não é sobre um filme. É sobre confiança. E confiança, especialmente na vida pública, exige transparência, documentos e explicações convincentes. O resto é discurso.
*Luiz Carlos Bordoni é editor-chefe do portal Canal CAT (www.canalcat.com.br).


