
Medida apresentada pelo pré-candidato à Presidência, Leonardo Avalanche (foto – Instagram), prevê redução drástica da carga sobre consumo e renda; economistas apontam desafios para manter arrecadação e serviços público
O sistema tributário brasileiro, frequentemente criticado por sua complexidade e peso sobre o bolso do cidadão, voltou ao centro do debate político com uma proposta ousada: a criação de um imposto único de 3,5% sobre consumo e renda. Apresentada pelo pré-candidato à Presidência Leonardo Avalanche, a medida promete reduzir pela metade o preço de produtos como carros populares e aumentar o poder de compra da população. Mas será que a conta fecha?
A promessa: menos impostos, mais dinheiro no bolso
De acordo com a proposta divulgada pelo pré-candidato, a alíquota única de 3,5% substituiria a atual “avalanche de impostos” que incidem sobre produtos e serviços — como IPI, ICMS, PIS e Cofins. Hoje, segundo o texto, um carro popular de R$ 100 mil tem cerca de 50% de seu valor composto por tributos. Com a nova sistemática, o mesmo veículo passaria a custar aproximadamente R$ 52 mil.
O impacto não se limitaria ao consumo. O pré-candidato afirma que o desconto de impostos no contracheque dos trabalhadores também cairia, resultando em salários maiores mês a mês. “Seu salário aumenta e seu poder de compra também, porque com o imposto único de 3,5% tudo que você compra cai praticamente a metade do valor”, diz a propaganda oficial.
Para os empresários, a promessa é igualmente ambiciosa: a alíquota para empresas, que atualmente pode chegar a 30% na reforma tributária em curso, seria reduzida para 3,5% — “do pequeno ao grande, sem exceções”.
O tamanho da carga tributária brasileira
Os números oficiais dão dimensão do desafio. A carga tributária bruta do Brasil atingiu 32,4% do PIB em 2025, totalizando R$ 4,12 trilhões, segundo dados do Tesouro Nacional — o maior nível da série histórica iniciada em 2010. Em 2024, o índice já havia chegado a 34,2% do PIB, colocando o Brasil na 14ª posição entre os países com maior carga tributária do mundo, acima de economias como Estados Unidos (25%) e Coreia do Sul (28%).
Os impostos sobre consumo são particularmente pesados no Brasil. Dados indicam que eles representam 49,7% da arrecadação total no país, contra uma média de 32% nos países da OCDE. Enquanto isso, a tributação sobre a renda no Brasil é de apenas 21%, bem abaixo da média de 34% da OCDE.
Especialistas: simplificação é bem-vinda, mas 3,5% é irrealista
Embora a ideia de simplificar o sistema tributário encontre eco entre especialistas, a alíquota de 3,5% é vista com ceticismo. A reforma tributária atualmente em implementação no Brasil prevê uma alíquota-padrão para o novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual em torno de 28% — oito vezes superior à proposta de Avalanche.
O economista José Roberto Afonso, professor do IDP e especialista em tributação, alerta que a simplificação com alíquota única não ataca o problema central e pode até agravá-lo. “Na era digital, não é alíquota que dificulta a vida dos empresários”, afirma. Ele defende que o foco deveria ser melhorar a qualidade do sistema, reduzindo impostos sobre consumo e aumentando a tributação sobre renda e patrimônio.
Afonso também ressalta um ponto crucial: a carga tributária elevada está diretamente ligada ao nível de gastos públicos. “Como os governos brasileiros ostentam déficit há anos, mesmo com uma carga tributária recorde, só é possível reduzir a carga se antes se diminuir o gasto público”.
O que está em jogo
A proposta de imposto único de 3,5% levanta questões fundamentais sobre o papel do Estado e o financiamento de serviços públicos. Com uma arrecadação muito menor, como seriam mantidos investimentos em saúde, educação, segurança e previdência?
Os defensores de reformas tributárias radicais argumentam que a simplificação poderia estimular a economia formal, aumentar a base de contribuintes e gerar mais crescimento, compensando a redução de alíquotas. Críticos, por outro lado, apontam que uma alíquota tão baixa tornaria inviável manter o atual padrão de gastos públicos, exigindo cortes drásticos ou endividamento crescente.


