
Senhor, preciso desabafar!
É um risco enorme o Senhor estar aqui. Por isso, este encontro é secreto, nesta sala fechada. Hoje, temo que a sociedade que o Senhor viria salvar, se soubesse de sua presença, não O receberia como Messias, mas O crucificaria novamente — talvez de cabeça para baixo, ou na horizontal, em alguma nova e terrível invenção de ódio. Não se iluda com nossos políticos, pois, com honrosas exceções, estão mais cafajestes que antes.
Há pessoas (eu também não sou flor que se cheire, kkkk) que se dizem seus seguidores, que carregam sua cruz em correntes de ouro, mas que defendem a morte como solução, erguendo a pena de morte como bandeira de justiça. Há aqueles, Jesus, que, citando as Escrituras, justificam o armamento das mãos, a corrida pelas armas, como se a paz pudesse nascer do medo e do metal. O próprio Papa atual alerta contra esta “espiral de destruição”, defendendo uma paz “desarmada e desarmante”.
Eles falam tanto em “liberdade”, a tal liberdade de expressão, de credo, de opinião. Mas, Senhor, eu vejo o que eles fazem com essa palavra. Usam-na como um escudo para atacar o diferente, para ridicularizar a fé alheia, para erguer muros onde o Senhor mandou construir pontes. Se o Senhor chegasse hoje pregando amor ao imigrante, compaixão pelo pobre, acolhida incondicional ao que a sociedade rejeita, eles usariam essa mesma “liberdade” para calar sua voz. Diriam que sua mensagem de empatia plena é “doutrinação”, que seu chamado radical à igualdade é “perigoso”.
Vejo cristãos que confundem o Reino de Deus com reinos deste mundo. Em vez de buscarem justiça para os oprimidos, muitos se aliam aos opressores. Em vez de verem seu rosto no leproso, no preso, no faminto, veem uma ameaça, um fardo, um “outro” que não merece compaixão. A empatia que o Senhor viveu — a capacidade de sentir com o outro, de carregar sua dor como sua — foi substituída por suspeita e indiferença.
Eles celebrariam seu nascimento em um culto luxuoso, mas trancariam a porta do templo para a mulher samaritana, para o publicano, para aqueles cujo amor ou identidade não se encaixa em seus moldes. Chamam de “cristianismo progressivo” ou “pós-moderno” qualquer tentativa de lembrar que seu evangelho é, antes de tudo, para os últimos. E, nessa lógica, o Senhor mesmo seria o maior dos progressistas, o mais subversivo dos mestres.
Por isso eu temo pelo Senhor aqui. A mensagem que o Senhor trouxe — de paz que desarma, de amor que não faz perguntas, de um reino virado de cabeça para baixo, em que os primeiros são os últimos — essa mensagem seria considerada uma afronta. Eles não a entenderiam. Ou pior: entenderiam perfeitamente e, como outrora, achariam que o mundo ficaria mais “seguro” sem ela.
Neste Natal, eu lhe peço: tenha cuidado, Senhor. Mas, por favor, não desista de nós.
Ainda há sementes do seu Evangelho germinando em silêncio. Há quem lembre que a verdadeira fé se mostra no amor aos pobres e no compromisso com a justiça. Há quem busque, mesmo com dificuldade, praticar a empatia que nos faz verdadeiramente humanos. Há quem, em meio ao barulho do ódio, ainda escute o sussurro do seu convite à paz.
Obrigado por ter vindo. Obrigado por ainda tentar. Neste Natal, que seu nascimento reacenda em nós não o desejo de poder, mas a coragem vulnerável do amor que o Senhor encarnou.
Que possamos, um dia, ser uma sociedade em que o Senhor não precisaria mais de encontros secretos para estar seguro.
Jesus, mesmo sabendo que o Senhor não nasceu nesta data, parabéns do mesmo jeito por mais um aniversário!


