
A violência, portanto, não é política no sentido clássico, mas uma tentativa de destruição moral e psicológica de mulheres que ousam ter voz e independência dentro do próprio campo.
Esse modus operandi, no entanto, não se restringe a xingamentos ou ataques virtuais; trata-se da radicalização de uma cultura de ódio que o bolsonarismo institucionalizou e que, desde 2018, vem transbordando para o terror físico. O ápice dessa escalada foi em 2022, quando a intolerância política se converteu em assassinatos brutais. Em Foz do Iguaçu (PR), um policial penal executou a tiros um petista simplesmente por sua filiação partidária, num crime que chocou o país. Em Goiânia (GO), um policial militar bolsonarista, dentro de uma igreja da Congregação Cristã no Brasil, disparou contra um “irmão” de fé, motivado pela mesma discórdia política. E em Sorriso (MT), um jovem abriu fogo contra várias pessoas em um ataque que vitimou, entre outros, uma garota de apenas 12 anos, expondo a barbárie de um extremismo que não faz distinção entre adultos e crianças.
Esse histórico de violência, somado à perseguição covarde contra a filha indígena da senadora, escancara a falência do discurso de união da direita. Ao invés de um debate de ideias, o que impera é a tentativa de silenciar e aniquilar quem pensa diferente, utilizando as armas mais sórdidas: a misoginia, a mentira e o terror psicológico contra uma criança. A senadora, ao expor a violência, fez um apelo contundente: “Não recue. Não tenha medo. Venha para a política”. É um chamado à resistência, mas também uma denúncia de que, para muitas mulheres, o preço por ocupar um espaço de poder ainda é a própria integridade física e emocional.
Essa crise expõe uma hipocrisia: enquanto o bolsonarismo se apropria de pautas como a defesa da vida e da família, seus agentes promovem o ódio e a desumanização contra os seus. A violência política de gênero, como bem lembrado por analistas, não é nova e sempre foi direcionada a mulheres de todos os espectros. No entanto, ver esse nível de degradação moral sendo aplicado como ferramenta de resolução de conflitos internos é um alerta máximo. Não se trata mais de política, mas de um vale-tudo que coloca em risco a vida de pessoas e a sanidade do debate democrático. As instituições, e a própria direita, precisam reagir com rigor, ou serão cúmplices da destruição que estão permitindo.



